{"id":1553,"date":"2022-03-16T12:25:30","date_gmt":"2022-03-16T15:25:30","guid":{"rendered":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/?p=1553"},"modified":"2022-03-16T12:31:01","modified_gmt":"2022-03-16T15:31:01","slug":"cerrado-berco-de-guardias-dos-saberes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/2022\/03\/16\/cerrado-berco-de-guardias-dos-saberes\/","title":{"rendered":"Cerrado: ber\u00e7o de guardi\u00e3s dos saberes ancestrais"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"1553\" class=\"elementor elementor-1553\" data-elementor-settings=\"[]\">\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-section-wrap\">\n\t\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-1e5f077e elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"1e5f077e\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-c9d5c97\" data-id=\"c9d5c97\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-113f1f6f elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"113f1f6f\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Territ\u00f3rio de incont\u00e1veis comunidades tradicionais, o bioma brasileiro guarda conhecimentos milenares, de cura, acolhimento e cuidado pelas m\u00e3os de mulheres que conservam a terra, as \u00e1guas e as narrativas sagradas<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u201cTudo o que a gente vai fazer, a gente pede licen\u00e7a\u201d. \u00c9 assim que a quilombola Lucely Piom neta de benzedeira, parteira e raizeira, come\u00e7a seu relato a respeito das energias cerradeiras que nos fortalecem todos os dias, a toda hora. Como geoterapeuta, fitoterapeuta e terapeuta hol\u00edstica, ela expressa em cada palavra a for\u00e7a das ra\u00edzes profundas do Cerrado e do quanto o bioma \u00e9 rico, nos alimenta e nos cura ao mesmo tempo. Como guardi\u00e3 de plantas medicinais e divulgadora de uma ci\u00eancia mais antiga do que o pr\u00f3prio Brasil, a quilombola da comunidade do Cedro, em Mineiros (Goi\u00e1s) \u00e9 refer\u00eancia internacional na miss\u00e3o de conservar o Cerrado para continuar a vida com sa\u00fade, especialmente para as mulheres.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Desde os cinco anos, quando percorria a regi\u00e3o com sua av\u00f3 Maria B\u00e1rbara, Lucely aprende a propriedade de cada ser curativo. Na promo\u00e7\u00e3o do di\u00e1logo entre conhecimento cient\u00edfico e tradicional, ministrou diversos cursos na Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e no Hospital de Medicina Alternativa em Goi\u00e2nia (GO), e atualmente \u00e9 professora no Projeto Encontro de Saberes na UnB, dando aula sobre sa\u00fade, cura, espiritualidade, saberes quilombolas e meio ambiente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Desmatar o Cerrado significa queimar as farm\u00e1cias naturais e as redes de cuidado entre as mulheres, jogar contra a vida, contra a sa\u00fade que vem da terra e das \u00e1guas, minar o potencial de cura com que o bioma nos presenteia. \u00c9 desprezar o presente forjado h\u00e1 milhares de anos. \u201cA gente, que \u00e9 mulher, tem mais o cuidado, porque carregamos a heran\u00e7a de cuidar do outro, ajudar o outro, zelar pela sa\u00fade do outro. Ent\u00e3o, quando a gente fala da cura, do Cerrado, da natureza, traz para n\u00f3s, mulheres, esse momento de trabalhar nessa preserva\u00e7\u00e3o, porque dali a gente tira nossos rem\u00e9dios, nossos alimentos\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A batalha pela<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods13\/e-o-homem-criou-um-deserto-no-cerrado\/\">\u00a0sobreviv\u00eancia do Cerrado<\/a>\u00a0\u00e9 penosa e precisa ser constante. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estimam que 7.340 km\u00b2 do bioma se foram entre agosto de 2019 e julho de 2020, aumento de 13% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o no ano de 2019. \u201cO Cerrado \u00e9 um dos maiores biomas da Am\u00e9rica Latina, e tem conex\u00e3o com a Mata Atl\u00e2ntica, a Amaz\u00f4nia, o Pantanal e a Caatinga. O Pantanal, por exemplo, depende bastante das \u00e1guas que v\u00eam do Cerrado e o Rio S\u00e3o Francisco tem mais de 75% do seu fluxo dependendo desse bioma\u201d, calcula Isabel Figueiredo, coordenadora do programa Cerrado e Caatinga do\u00a0<a href=\"https:\/\/ispn.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto Sociedade Popula\u00e7\u00e3o e Natureza (ISPN)<\/a>.\u201dNo nosso pa\u00eds a gera\u00e7\u00e3o de energia hidr\u00e1ulica \u00e9 a maior fonte de energia, ent\u00e3o, a \u00e1gua do Cerrado tamb\u00e9m \u00e9 importante para isso. Al\u00e9m disso, o Cerrado \u00e9 importante para a regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, das chuvas, da temperatura, da umidade que vem da Amaz\u00f4nia para o Sudeste. Tudo passa pelo Cerrado\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:heading {\"level\":6} --><\/p>\n<h5><strong>\u00c9 preciso respeitar o sagrado da terra<\/strong><\/h5>\n<p><!-- \/wp:heading --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"id\":1554,\"sizeSlug\":\"full\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"951\" height=\"809\" class=\"wp-image-1554\" src=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/cerrado-saude-da-mulher-encontro-dos-povos-2.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/cerrado-saude-da-mulher-encontro-dos-povos-2.jpeg 951w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/cerrado-saude-da-mulher-encontro-dos-povos-2-300x255.jpeg 300w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/cerrado-saude-da-mulher-encontro-dos-povos-2-768x653.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 951px) 100vw, 951px\" \/>\n<p><i style=\"font-weight: inherit;\">Lucely Pio: mestra quilombola que ensina as propriedades terap\u00eauticas das plantas. Foto: divulga\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n<\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Cada planta tem uma energia distinta e atua em um \u00f3rg\u00e3o diferente. Mestra Lucely nos conta isso ao denunciar o quanto a destrui\u00e7\u00e3o do Cerrado compromete todo um tratamento, que tem um ritual para se efetivar, com os ingredientes certos. Com o agroneg\u00f3cio, a morte das plantas inviabiliza a sa\u00fade dos povos n\u00e3o s\u00f3 do campo, mas tamb\u00e9m os da cidade \u2013 afinal a ind\u00fastria farmac\u00eautica tamb\u00e9m se utiliza da natureza.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Em sua cl\u00ednica, a professora realiza procedimentos e orienta\u00e7\u00f5es em atendimentos personalizados. Nesses tempos de pandemia, as terapias mais requisitadas s\u00e3o para ansiedade, depress\u00e3o e estresse. Ela adota m\u00e9todos como o Reiki (t\u00e9cnica de imposi\u00e7\u00e3o de m\u00e3os e canaliza\u00e7\u00e3o de energias), realinhamento dos chacras, banho de argila, cromoterapia, e usa plantas medicinais em v\u00e1rios tratamentos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Com 70% da mata nativa conservada em seu quilombo, a mestra se preocupa ao ver a lavoura de cana-de-a\u00e7\u00facar apontar nos arredores, uma amea\u00e7a \u00e0s esp\u00e9cies da regi\u00e3o. \u201cTudo tem dono: a mata, a \u00e1gua, as plantas, as pedras. Ent\u00e3o, o que a gente faz \u00e9 respeitar e, muito, cada um desses donos, porque a m\u00e3e natureza divide cada espa\u00e7o dela sob o controle de um dono\u201d, ensina, sobre a rever\u00eancia ao sagrado da natureza e a f\u00e9 no ato de promover sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Lucely tamb\u00e9m \u00e9 uma das autoras do livro \u201cFarmacopeia Popular do Cerrado\u201d, que re\u00fane 262 raizeiras e raizeiros desfilando conhecimentos tradicionais sobre a biodiversidade local. A quilombola est\u00e1 entre as fundadoras da Articula\u00e7\u00e3o Pacari, rede que dissemina forma\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria para manter o Cerrado vivo. Ela promove ainda a capacita\u00e7\u00e3o de mulheres em \u00e1reas como sa\u00fade, responsabilidade social, autoestima e empoderamento, tanto na gera\u00e7\u00e3o de renda como na medicina preventiva.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:heading {\"level\":6} --><\/p>\n<h5><strong>\u201cO povo do Cerrado, sem Cerrado e sem mata, n\u00e3o existe\u201d<\/strong><\/h5>\n<p><!-- \/wp:heading --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"id\":1555,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"687\" class=\"wp-image-1555\" src=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/foto-divulgacao-1536x1031-1-1024x687.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/foto-divulgacao-1536x1031-1-1024x687.jpg 1024w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/foto-divulgacao-1536x1031-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/foto-divulgacao-1536x1031-1-768x516.jpg 768w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/foto-divulgacao-1536x1031-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/>\n<p><i style=\"font-weight: inherit;\">Matriarca colhe plantas no Cerrado: agroneg\u00f3cio destr\u00f3i vegeta\u00e7\u00e3o original. Foto: divulga\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n<\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O Centro de Plantas da comunidade quilombola do Cedro foi fundado na cozinha de mestra Lucely em 1985, e hoje ostenta mais de 400 esp\u00e9cies de plantas e frutas medicinais do Cerrado. O centro \u00e9 um laborat\u00f3rio para as crian\u00e7as aprenderem sobre plantar, colher e usar os vegetais, al\u00e9m de visitarem a mata, que se torna a grande sala de aula. \u201cNa verdade, \u00e9 algo que se ensina no cotidiano familiar dos quilombolas\u201d, acrescenta. \u201cAqui, criamos uma forma de aperfei\u00e7oamento para disseminar o saber\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Lucely amplia a ideia de plantas medicinais e diz que \u00e9 poss\u00edvel encontrar sa\u00fade nos h\u00e1bitos alimentares do dia a dia. \u201cTanto fruta quanto um tempero com ervas, voc\u00ea n\u00e3o precisa beber o rem\u00e9dio, porque ele est\u00e1 na alimenta\u00e7\u00e3o. Tomar o ch\u00e1 de uma fruta, fazer um suco, a mesma\u00a0 coisa. Ent\u00e3o, \u00e9 saber que tipo de vitamina, prote\u00edna e sais minerais precisa e buscar nas frutas, nas verduras e nas ra\u00edzes. Inclusive as oficinas que a gente ministra s\u00e3o de plantas medicinais e alimenta\u00e7\u00e3o enriquecida com frutos e folhas do Cerrado\u201d, ressalta sobre a import\u00e2ncia da boa alimenta\u00e7\u00e3o para o fortalecimento do corpo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>O Cerrado nos ensina que a vida sempre vai ser maior e acima de qualquer evento e circunst\u00e2ncia. Mesmo depois de uma queimada um, dois dias, alguns dias a gente j\u00e1 percebe a vida brotando novamente na sua grandeza e delicadeza<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Com o sonho de conquistar espa\u00e7o espec\u00edfico para cursos, terapias e atendimento a\u00a0 mulheres, jovens e crian\u00e7as, ela prega que \u00e9 preciso manter o Cerrado em p\u00e9 no futuro. \u201cTemos a obriga\u00e7\u00e3o de deixar o nosso Cerrado melhor do que a gente encontrou. Para que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m possa conhecer e usar como n\u00f3s estamos tendo esse privil\u00e9gio\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Isabel Figueiredo, do ISPN, atesta que as mulheres s\u00e3o as primeiras a sofrer quando um ambiente \u00e9 alterado. \u201cS\u00e3o o lado mais fr\u00e1gil, geralmente, do ponto de vista social\u201d, completa. \u201cEnt\u00e3o, o que est\u00e1 acontecendo hoje de v\u00e1rias comunidades tradicionais estarem sendo expulsas de seus territ\u00f3rios ocupados por monoculturas, muitas vezes os maridos v\u00e3o trabalhar em outras regi\u00f5es e deixam as mulheres sozinhas com as crian\u00e7as. As mulheres s\u00e3o esse lado que segura as fam\u00edlias e, portanto, s\u00e3o bastante impactadas pela expropria\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>F\u00e1tima Cabral, agricultora, produtora de \u00e1gua, enfatiza a import\u00e2ncia de se valorizar as mulheres que cuidam, coletam e se utilizam da riqueza do bioma. Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores Agroecol\u00f3gicos do Alto S\u00e3o Bartolomeu (Aprospera), n\u00facleo rural Pipiripau, ela defende a preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio material e imaterial, de seus conhecimentos e do fortalecimento das identidades dos povos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u201cEssa rela\u00e7\u00e3o das mulheres com o Cerrado transpassa o lugar da maternidade, do cuidado, do zelo, da preserva\u00e7\u00e3o, do aproveitamento respeitoso, da coleta de sementes e coleta de frutos, de uma forma cuidadosa\u201d, traduz. \u201c\u00c9 da natureza da mulher ser cuidadosa e forte mas com delicadeza. Ent\u00e3o, \u00e9 a mesma rela\u00e7\u00e3o que n\u00f3s observamos na conserva\u00e7\u00e3o, de usar os recursos que s\u00e3o oferecidos pelo Cerrado com consci\u00eancia. E a sociedade tem muito a aprender com essa rela\u00e7\u00e3o respeitosa, com essa rela\u00e7\u00e3o do reconhecimento do valor, do sabor, mas sem destruir, sem exterminar, sem acabar com a vida. \u00c9 ter esse olhar mais profundo do que a natureza representa na nossa vida\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Nascida no Rio Grande do Sul, F\u00e1tima foi para o Distrito Federal com 1 ano de idade. Hoje com 61, mesma idade da capital Bras\u00edlia, trabalha com o sistema de Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA) no Distrito Federal, e desfila orgulho por viver e ser acolhida pelo Cerrado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u201cO Cerrado nos ensina que a vida sempre vai ser maior e acima de qualquer evento e circunst\u00e2ncia. Mesmo depois de uma queimada um, dois dias, alguns dias a gente j\u00e1 percebe a vida brotando novamente na sua grandeza e delicadeza\u201d, reverencia, falando da li\u00e7\u00e3o que aprendeu ali. Resili\u00eancia para atravessar todas as adversidades, porque temos uma miss\u00e3o a cumprir. Assim, como o Cerrado tem essa miss\u00e3o valorosa de ser aqui, nesse territ\u00f3rio, a caixa d\u2019\u00e1gua do pa\u00eds, onde est\u00e3o as tr\u00eas das maiores bacias. Ent\u00e3o, h\u00e1 que ser forte, h\u00e1 que se formar uma rede forte, pela continuidade das comunidades tradicionais\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A agricultora se entende herdeira dos saberes daquele territ\u00f3rio. \u201cTer encontrado aqui minhas ra\u00edzes, minhas for\u00e7as e aqui ter iniciado minha fam\u00edlia, tudo isso tem valor muito grande\u201d, agradece, que teve todos os filhos no Cerrado \u2013 e tamb\u00e9m por isso \u00e9 grata.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:heading {\"level\":6} --><\/p>\n<h5><strong>Cientistas mulheres e as plantas que curam<\/strong><\/h5>\n<p><!-- \/wp:heading --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"id\":1556,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" class=\"wp-image-1556\" src=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dandaras-1536x1152-1-1024x768.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dandaras-1536x1152-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dandaras-1536x1152-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dandaras-1536x1152-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/dandaras-1536x1152-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/>\n<p><i style=\"font-weight: inherit;\">Encontro das Dandaras no Cerrado antes da pandemia: autocuidado e for\u00e7a no coletivo. Foto: divulga\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n<\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as lutas do<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/dandaranocerrado\/\">\u00a0grupo de mulheres negras Dandaras no Cerrado<\/a>: conhecer a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, acionar o autocuidado, se fortalecer no coletivo, incentivar o surgimento de lideran\u00e7as, valorizar o estudo e reivindicar pol\u00edticas de sa\u00fade espec\u00edficas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra. Inspiradas na l\u00edder do primeiro Estado livre das Am\u00e9ricas, o Quilombo dos Palmares, a organiza\u00e7\u00e3o se articula h\u00e1 quase 20 anos no amparo \u00e0s mulheres do bioma. Atualmente o empenho tamb\u00e9m contempla a instala\u00e7\u00e3o da Farm\u00e1cia Popular Dom\u00e9stica, junto ao Laborat\u00f3rio de Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o Qu\u00edmica e Inclus\u00e3o (LPEQI) da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG). Por meio de oficinas online, as alunas s\u00e3o motivadas a observar as plantas de suas pr\u00f3prias casas e para conseguir rem\u00e9dios com materiais alternativos e de baixo custo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Aqui \u00e9 como a vida, tem altos e baixos, as coisas tortas, mas a beleza \u00e9 exuberante. Assim tamb\u00e9m \u00e9 a vida das mulheres: por mais sofrimento que seja, quando voc\u00ea se desponta, voc\u00ea se empodera, ningu\u00e9m segura. Pode vir fogo, voc\u00ea renasce, vira a f\u00eanix do Cerrado, se reinventa.\u00a0<span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">O projeto ainda testa saberes populares e promove a amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento, a partir de procedimentos qu\u00edmicos em laborat\u00f3rio sobre plantas medicinais. E como resultado final, planeja a constru\u00e7\u00e3o de uma pequena farm\u00e1cia com plantas do Cerrado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Mulheres em contexto urbano j\u00e1 selecionaram 168 plantas para aviamento de\u00a0 receitas. S\u00e3o tecnologias ancestrais que ganham vitalidade na criatividade cient\u00edfica e laboratorial, em que os saberes da academia e o tradicional se encontram para expressar a riqueza de caminhos.\u00a0<span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u201cTodos somos cientistas quando aprendemos, partilhamos e transmitimos o conhecimento. Por exemplo, voc\u00ea pega uma planta, vai estudar o qu\u00ea? As prote\u00ednas, o que essa planta pode, o que n\u00e3o pode, o que faz bem e o que n\u00e3o faz bem, como tirar a coisa que faz mal, como eliminar a toxicidade. Ent\u00e3o, \u00e9 fazer ci\u00eancia, descobrir caminhos\u201d, descreve Marta Cez\u00e1ria, fundadora e coordenadora do Dandaras no Cerrado, mestranda no Programa de Educa\u00e7\u00e3o e Ci\u00eancia Matem\u00e1tica da UFG, com pesquisa focada nas mulheres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-style: inherit; font-weight: inherit;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A cientista, lideran\u00e7a feminista negra em Goi\u00e1s, faz quest\u00e3o de enfatizar que os avan\u00e7os sociais e cient\u00edficos s\u00e3o conquistas conjuntas. \u201cNingu\u00e9m faz ci\u00eancia sozinho, \u00e9 tudo coletivo\u201d, atesta, em pensamento que se comprova at\u00e9 na produ\u00e7\u00e3o em tempo recorde de vacinas contra a covid-19. Com a experi\u00eancia junto \u00e0s mulheres negras no combate \u00e0s muitas viol\u00eancias que as espreitam, Marta batiza o processo de busca por sa\u00fade, f\u00edsica, espiritual e coletiva de afroternidade. \u201cPara n\u00f3s, mulheres negras, \u00e9 esse estar uma com a outra, por exemplo, essa viv\u00eancia do terreiro, essa viv\u00eancia do grupo, do aconchego quando encontramos outras como n\u00f3s, e suas fam\u00edlias\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u201cAs pessoas \u00e0s vezes s\u00f3 traduzem isso como aconchego, a gente vai mais longe. Afroternidade \u00e9 acolher e se sentir acolhida. \u00c9 uma forma de lidarmos com nossos problemas, alegrias, tristezas, sofrimentos, descobertas. \u00c9 esse cuidado entre mulheres negras\u201d, explica, sobre a import\u00e2ncia do grupo e do autocuidado da sa\u00fade embutido na constru\u00e7\u00e3o da Farm\u00e1cia Popular.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A cientista, que tem longo caminho na defesa dos direitos das mulheres, formou muita gente nas comunidades tradicionais de Goi\u00e1s, na defesa do Cerrado em p\u00e9, e na valoriza\u00e7\u00e3o do conhecimento de cada povo. \u201cUma planta muito utilizada no Cerrado \u00e9 o algod\u00e3ozinho, porque funciona em muitas infec\u00e7\u00f5es, mas precisa administrar do jeito certo. S\u00e3o dois tipos de algod\u00e3ozinho, tem que conhecer para n\u00e3o correr risco\u201d, ensina. \u201cTem o ip\u00ea roxo tamb\u00e9m, do qual se usa a entrecasca e n\u00e3o pode cortar de qualquer jeito, porque a \u00e1rvore\u00a0 tem que continuar sobrevivendo. Voc\u00ea tira um peda\u00e7o para fazer o rem\u00e9dio, mas cuida da \u00e1rvore, para ela cicatrizar e continuar\u201d, acrescenta, sobre a t\u00e9cnica que se baseia no respeito \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Marta Cez\u00e1ria compara as mulheres do Cerrado com as flores do bioma, que mesmo em solo arenoso se abrem a novas possibilidades, \u00e0 vida. \u201cConheci o mar, conheci outros pa\u00edses, mas n\u00e3o trocaria o Cerrado por nada. Aqui \u00e9 como a vida, tem altos e baixos, as coisas tortas, mas a beleza \u00e9 exuberante. Assim tamb\u00e9m \u00e9 a vida das mulheres, por mais sofrimento que seja, quando voc\u00ea se desponta voc\u00ea se empodera, ningu\u00e9m segura, pode vir fogo, voc\u00ea renasce, vira a f\u00eanix do <a title=\"Cerrado\" href=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/2021\/07\/21\/mulheres-negras-autocuidado-e-pandemia\/\">Cerrado<\/a>, se reinventa\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><strong><em>Imagem em destaque: Ludmila Almeida<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Texto publicado originalmente no <a title=\"Projeto Colabora\" href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods8\/cerrado-berco-de-guardias-dos-saberes-ancestrais\/\">Projeto Colabora<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Territ\u00f3rio de incont\u00e1veis comunidades tradicionais, o bioma brasileiro guarda conhecimentos milenares, de cura, acolhimento e cuidado pelas m\u00e3os de mulheres que conservam a terra, as \u00e1guas e as narrativas sagradas \u00a0 \u201cTudo o que a gente vai fazer, a gente pede licen\u00e7a\u201d. \u00c9 assim que a quilombola Lucely Piom neta de benzedeira, parteira e raizeira, &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/2022\/03\/16\/cerrado-berco-de-guardias-dos-saberes\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Cerrado: ber\u00e7o de guardi\u00e3s dos saberes ancestrais<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":1557,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"spay_email":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12,13,14],"class_list":["post-1553","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-cerrado","tag-mulheres","tag-saberes"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/img-8509-1440x960-1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1553","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1553"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1553\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1580,"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1553\/revisions\/1580"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1553"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1553"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/dandaranocerrado.org\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1553"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}